Fonte: Bioclimatologia Aplicada aos Animais Domésticos: Muller B.O -3a ed. Ed. Sulina
Em grande parte das regiões tropicais, a produção de animais não tem recebido muita atenção. Comparando a velocidade de crescimento do gado leiteiro dessas regiões com a dos países temperados, ela apresenta apenas 10 a 21%. A produção de carne, devido à alta mortalidade de animais, alcança apenas 1/6 a1/7 da produção das zonas temperadas. Essa alta mortalidade ocorre principalmente devido à alimentação.
2.3. O meio ambiente
As melhores condições para a criação de animais seria a de uma temperatura entre 13 a180 C; uma umidade relativa de 60 a 70%; a velocidade dos ventos de 5 a 8 km.h-1; solos férteis, sem parasitos e bactérias; a radiação solar com incidências das encontradas na primavera e no outono.
A temperatura, a umidade relativa e níveis de radiação solar entre as latitudes de 300 do hemisfério Norte e Sul, geralmente, são abaixo do ideal ou da zona de conforto para o ponto ótimo de criação dos animais domésticos. Deste modo, devemos considerar os elementos e fatores climáticos que modificam a performance desses animais. A compreensão da atuação de cada um desses elementos é muito importante. Nas últimas décadas tem sido dada uma crescente importância ao estudo da BIOCLIMATOLOGIA.
O maior conhecimento das relações clima-animal-vegetal, que tendem dar uma maior exatidão da influência que exerce o meio ambiente sobre a produção agrícola e animal, são devidas, em grande parte, ao desenvolvimento da Bioclimatologia, ao estudo das inter0relaões diretas ou indiretas entre o ambiente geofísico e o geoquímico da atmosfera e os seres vivos, animais e plantas.
2.4. As variações ambientais
Os elementos do ambiente físico que incidem sobre o animal estão representados na Figura 01, como os raios de uma roda. Nesta ilustração o homem atua como eixo, os animais como o cubo da roda e as praticas de manejo são o lubrificante que facilitam que a roda se mantenha em movimento. A superfície de rodagem da roda representa o meio ambiente total, que mantém sua estrutura graças aos raios, que simbolizam as influências dos distintos elementos. As linhas concêntricas mostram as interações importantes entre estes elementos. Quando a influência de um elemento alcançar um ponto extremo, se romperá um meio e se perderá o delicado equilíbrio do meio ambiente e do animal (BONSMA, 1958).
Quando o animal está sob uma temperatura em torno de 8 – 100C e sua zona de conforto é de 130 C, a roda reflete isto mediante uma depressão, segundo se aprecia na figura 02.
Estas circunstâncias provocariam certo grau de desconforto no animal e provocariam uma estimulação de certos processos fisiológicos de reação, que determinariam trocas no seu comportamento geral. Não obstante, apesar destes efeitos diretos, a roda continuaria girando, ainda que com menos eficácia que antes, devido à depressão formada pela temperatura. Assim mesmo, segundo as condições estabelecidas, o principal impacto da troca de temperatura não se deve à ação direta, mas por mecanismo indireto. Se as condições de uma temperatura elevada fossem prolongadas, como ocorre em boa parte das latitudes entre 300 N – S, os efeitos indiretos que incidem sobre o animal, através da escassez ou baixa qualidade dos alimentos, de enfermidades, de parasitos, poderiam determinar um colapso da roda, como se verifica na figura 02, quando se rompem vários raios, e o meio ambiente ocasiona um subprodutivo, tanto na eficiência como na produtividade em geral.Outra dificuldade para manter o equilíbrio na roda ambiental se deve às práticas tradicionais de exploração animal, como as de conservá-los na sombra durante as horas mais quentes do dia ou estabulados durante as horas mais frias, impedindo assim de avaliarmos corretamente os efeitos diretos das condições climáticas sobre o conforto e o rendimento dos animais. Nas figuras 01 e 02, podemos apreciar que o conhecimento das condições climáticas médias previsíveis, suas variações estacionais e duração das condições extremas podem ser um valioso instrumento para determinar a possibilidade geral de produzir gado em uma região, as técnicas mais adequadas para produção de alimentos, a necessidade de estábulos e o melhor manejo para os animais.
4. Clima e Termorregulação.
Adequar a edificação ao clima de um determinado local significa construir espaços que possibilitem ao animal condições de conforto. Ao projetista cabe tanto amenizar as sensações de desconforto impostas por climas mais rígidos, tais como os de excessivo calor, frio ou vento, como também propiciar ambientes os quais sejam, no mínimo, tão confortáveis como os espaços ao ar livre em climas amenos, para que os altos níveis de produtividade sejam atingidos.
Dentre as propriedades físicas do ar atmosférico que caracterizam as condições climáticas de uma região, podem-se distinguir as que mais interferem no desempenho térmico dos espaços construídos. A oscilação diária e anual da temperatura ambiente e escuro for o solo, maior será sua absortividade térmica não havendo quase nenhuma refletividade para o meio ambiente. Justamente o oposto ocorre com solos claros que refletem o calor de volta ao ambiente.
Esse fenômeno não existe somente para os animais abrigados. Estudos indicam que bovinos em pastagens são expostos a diferentes quantidades de calor radiante que dependem do tipo de capim utilizado. Alguns são mais radiantes que outros, aumentando a quantidade de carga de radiação total que incide no meio ambiente e, consequentemente sobre o animal.
As figuras abaixo indicam as cargas aproximadas de radiação recebidas pelos caprinos sob alta temperatura.




A radiação solar penetra na edificação como calor. O conceito da combinação do calor radiante com a troca de calor por convecção resulta num problema de convecção simples.
A quantidade de radiação solar que atinge o solo depende também da porcentagem de recobrimento do céu e da espessura das nuvens. A nebulosidade se for suficientemente espessa e ocupar a maior parte do céu, pode formar uma barreira que impede a penetração da radiação solar. Do mesmo modo, pode evitar que o calor desprendido do solo à noite se dissipe na atmosfera.
5. O conforto ambiental para suínos.
Durante um mês foi feita uma experiência micro-meteorológica para avaliar as trocas energéticas de um varrasco numa criação industrial em Montemor. Mediram-se continuamente a radiação de grande e de pequeno comprimento de onda, o fluxo de calor para o pavimento e a sua temperatura superficial em 5 pontos, a umidade e a velocidade do vento. Pontualmente foi também medida a temperatura superficial do animal com um termômetro de infravermelhos. Durante todo o tempo da experiência o animal foi filmado para determinar em cada momento a sua posição. Essas medições foram complementadas por medições do peso corporal do animal e das quantidades de ração e água ingeridas. Com estes dados construir-se-á um modelo estocástico das trocas de calor do animal, que será também validado.5.Relação com outras ciências.
5.1) Bioclimatologia e Meteorologia.
A Meteorologia é a ciência da atmosfera, incluindo não só a Física, Química e a dinâmica da Atmosfera, mas também seus efeitos diretos sobre a superfície da terra, oceanos e a vida em geral (Borisenkov, 1987), desta forma, a atmosfera controla a vida de muitas formas. Age como uma cobertura filtrando vários tipos de radiações eletromagnéticas e articulações de alta energia do Sol e do espaço. Os ventos transportam calor e unidade e, neste processo, misturam o ar e criam condições mais uniformes na Terra do que poderiam existir. Os mesmos ventos que dirigem correntes oceânicas e produzem ondas do mar, interferem nos processos biofísicos na Camada Limite Atmosférica, delimitando-a.
Assim, a fim de se detalhar melhor a atmosfera, se faz uma divisão em diversas escalas (temporal e espacial), e evidentemente, dividindo a meteorologia em diversas linhas de pesquisa: Meteorologia Física, Meteorologia Dinâmica, Meteorologia Dinâmica, Meteorologia Sinótica, Meteorologia Aeronáutica, Agrometeorologia, Climatologia e Bioclimatologia, todas com o objetivo final de trabalhar com e no ambiente em prol dos seres vivos, entendendo-se como tal o ambiente que o envolve, podendo ser: o globo, um ecossistema, um único animal ou um rebanho, uma planta, uma folha isolada. Desta forma a “Bioclimatologia” é tão vasta que campos distintos são geralmente designados, porém todos os campos envolvem o estudo da superfície da Terra como meio dos processos físicos, ou o estudo das formas de vida como sujeitas ao seu ambiente físico, ou uma parte da biofísica lidando com o tropismo.
Nos modelos de circulação, a bioclimatologia trabalha na superfície da Terra e busca relações energéticas na interface solo-planta-atmosfera, delimitando, principalmente, o que e quanto se troca em forma de calor latente, calor sensível, fluxo de calor no solo e, evidentemente, a radiação líquida disponível para mover a “maquina biosférica”.
Assim sendo, a vida na Terra é limitada pelas condições do meio físico responsável pela grande variabilidade de plantas existentes sobre o globo terrestre, que é uma resposta das mesmas aos estados do sistema solo-planta-atmosfera. Os mecanismos de transferência de calor, água, gases e íons no solo; captação de fótons, difusão, translocação, fluxo de seiva, ação de enzimas e hormônios de plantas; transferências turbulentas e de radiação e precipitação na atmosfera, são afetados pelo estado dos três componentes, que comandam os processos fisiológicos.
5.2) Bioclimatologia e Ecologia.
A exceção de alguns tipos de bactérias é de nosso conhecimento que os seres vivos só podem subsistir num intervalo de temperatura compreendido, em média entre 00 e 500 C, pois são estas as temperaturas compatíveis com uma atividade metabólica normal. Nesse caso a relação entre a vida e a temperatura é claramente observada.
Assim, como a temperatura, vários agentes do meio exercem influência sobre os organismos vivos. Estes agentes são denominados fatores ecológicos, e comumente classificados em edáficos, químicos, bióticos, ou no caso, climáticos. No entanto, nem sempre é fácil classificar um fator numa categoria ou em outra; a temperatura, por exemplo, fator abiótico, é muitas vezes influenciado pela presença dos seres vivos.
Em diversas regiões do planeta, onde a vegetação original foi alterada ou extinta por uma ação antrópica, observaram-se como conseqüência, mudanças climáticas. Esse fato pode ser percebido nas significativas diferenças encontradas em regiões geograficamente vizinhas como um centro urbano, uma área de preservação florestal, ou uma plantação de cana. Assim a forma de adaptação e sobrevivência encontrada pela planta em um determinado meio ou seja, a complexa interação da vegetação com o solo e a atmosfera acaba por ser fator ativo na formação do micro-clima.
Da mesma forma que as plantas, os animais também desempenham papel importante na formação climática. Em estudos com abelhas observou-se que quando a temperatura da colméia desce a um valor abaixo de 230 C, aproximadamente, as abelhas se agitam e fazem a temperatura subir para 250 ou 300 C. Nesse caso o micro-clima da colméia, alterado pelas abelhas, torna-se muito mais estável e satisfatório.
De acordo com Odum (1993), os seres vivos se adaptam segundo suas necessidades, ao ambiente físico e geoquímico através da sua ação no meio. Desta forma, as comunidades de organismos e seus ambientes desenvolvem-se em conjunto, o que demonstra a importância de uma abordagem bioclimática na compreensão ecológica de um determinado ecossistema.
5.3) Bioclimatologia e Hidrologia.
A importância cada vez maior que se vem tendo com as questões hidrológicas não são por menos; a falta ou o excesso de água pode comprometer integralmente o bem estar do homem. Enquanto as secas definham as lavouras, provocando fome e desnutrição, as enchentes soterram moradores de encostas, trazem prejuízos materiais, e fazem proliferar diversas doenças de veiculação hídrica.
Daí a contínua necessidade de aprimoramento dos modelos hidrológicos utilizados por gestores da Engenharia de Recursos Hídricos. Esse processo de refinamento dos modelos esbarra muitas vezes na falta de um melhor conhecimento de parâmetros hidrológicos na unidade de estudo. A correta determinação de características como infiltração, evapotranspiração e coeficiente de escoamento superficial são indispensáveis a eficácia de um modelo hidrológico.
Numa abordagem mais detalhada do problema, estes parâmetros devem ser concebidos não como características estáticas de uma bacia hidrográfica, mas sujeitos a contínuos processos de transformação, quer seja por ação antrópica ou características próprias do meio.
Nesse contexto, um conhecimento bioclimático da unidade de estudo pode colaborar na determinação dinâmica dos parâmetros hidrológicos, quando busca compreender as relações de trocas de massa e energia envolvidas.
6) Considerações finais.
Dentre as diversas dimensões aqui tratadas, atualmente, a que mais tem sido tratada com certo “frenesi” pela geração presente, quem sabe envergonhada pelo que vai legar às gerações futuras é a ECOLÓGICA. Esta dimensão, embora não seja nova, passou a ser a menina dos olhos da humanidade e, não há neste momento um setor científico que com ela não esteja preocupado, pois envolve todos os setores do nosso meio ambiente, desde o de nível mais elementar ao de nível mais elaborado.
Assim pensando é que nos reunimos para debater em congressos, seminários, encontros de toda sorte, onde a temática, implícita ou explicitamente se faz presente. Portanto, neste emaranhado de buscas para melhorar as condições necessárias de vida em nosso planeta, numa mudança paradigmática, a Bioclimatologia dela faz parte, surgindo como uma ciência nova, independente, como ocorreu com a ecologia e a hidrologia.
A bioclimatologia está intrinsecamente relacionada a este novo contexto, como o estudo das transferências de energia e de massa entre os seres vivos e a atmosfera, em diversas escalas de tempo e de espaço.
7). Referências.
BRUTSAERT, W. Evaporation into the Atmosphere. Dordrecht, Boston, Lancaster: Reidel
BRUTSAERT, W. Evaporation into the Atmosphere. Dordrecht, Boston, Lancaster: Reidel
Publishing Company, 1982.
FOCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 1996.
ODUM, Eugene. P. Ecologia.Rio de Janeiro: Guanabara, 1983.
MÜLHER, B.P., Bioclimatologia Aplicada aos Animais Domésticos. Editora Saraiva – 3a Edição – 1989 – Santa Maria – 262 p.
NÃÃS, I.A., Princípios do Conforto Térmico na Produção Animal.- São Paulo: Ícone, 1989, Coleção Brasil Agrícola.
Página


Nenhum comentário:
Postar um comentário